Boletim Ano 12(2023) – Nº 01 – Eixo Pobreza : CARACTERÍSTICAS SOCIOECONÔMICAS DA POPULAÇÃO NEGRA  NO MARANHÃO.

EDITORIAL

 A presente edição do Boletim Social e do Trabalho- eixo Pobreza, busca refletir sobre um tema fundamental para compreender o cenário histórico contemporâneo, a questão da raça e do racismo.

No Brasil, a discriminação por raça incide mais fortemente sobre os descendentes diretos do povo negro e possui sua base no escravismo, que deu suporte ao processo de formação socioeconômica do país. Tal processo foi construído com violações contra esse povo expressas em jornadas de trabalho forçado e aplicação de castigos físicos, psicológicos e morais. A mudança formal institucionalizada, após a denominada abolição da escravatura, não incidiu sobre a essência das relações sociais. Desse modo, a imagem estigmatizada do ser negro como raça inferior foi transposta aos afrodescendentes.

Desse modo, na seção “Em foco”, com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (IBGE, 2021) são apresentados dados que demonstram a incidência negativa dessa construção histórica sobre os denominados pretos e pardos. O entrevistado, Professor Doutor Carlos Benedito Rodrigues da Silva (seção “Atualidades”), em entrevista concedida ao então doutorando, Rosenverck Estrela Santos, enfatiza essa forma histórica de violência contra o povo negro discorrendo sobre racismo, a luta do movimento negro e as conquistas e desafios ainda necessários para se atingir a igualdade racial.

Nas duas secções seguintes são feitas indicações com vistas ao adensamento das reflexões. Na seção ‘Informe bibliográfico” sugere-se a leitura dos livros “O Genocídio do Negro Brasileiro: processo de um racismo mascarado” de Abdias Nascimento, publicado pela Editora Perspectiva e “Como o Racismo criou o Brasil”, publicado pela Editora ‎ Estação Brasil, de Jessé de Souza Na seção “Eventos” sugere-se que os leitores assistam aos filmes: 1) “Medida Provisória”, filme brasileiro de ficção dirigido por Lázaro Ramos que trata da tentativa de reparação feita pelo governo brasileiro contra o passado escravocrata. Tal medida provoca reação no Congresso Nacional  que, aprova medida, obrigando os cidadãos negros a se mudarem para a África na intenção de retomar as suas origens; 2) “Selma – Uma Luta Pela Igualdade” de David Oyelowo que trata de relato sobre um ato de protesto organizado pelo pastor Martin Luther King Jr. que foi assassinado em 1968 e permanece como um importante baluarte da luta da comunidade negra.

                                          Boa leitura!

             Profa. Dra. Salviana de Maria Pastor Santos Sousa

                                      Editora Adjunta

ATUALIDADE

RACISMO, MOVIMENTO NEGRO E POLÍTICAS PÚBLICAS: a história de luta do povo negro[i]

 Entrevista com o Prof. Dr. Carlos Benedito Rodrigues da Silva[1]

realizada pelo então, doutorando Prof. Rosenverck Estrela Santos[2]

Essa entrevista foi realizada com o Prof. Dr. Carlos Benedito Rodrigues da Silva – o Professor Carlão – com o objetivo de conhecer suas análises acerca da luta do movimento negro contra o racismo e suas demandas por políticas públicas antirracistas.

Poucos têm a legitimidade e a experiência militante e acadêmica para fazer reflexões sobre os processos discriminatórios e luta antirracista desenvolvidas pelo povo negro no Brasil. O professor Carlão não apenas é um militante da causa negra desde a juventude, como é um dos principais acadêmicos e pesquisadores das relações étnico-raciais na formação social brasileira. Nesta entrevista ele discorre sobre racismo, a luta do movimento negro e as conquistas e desafios ainda necessários para se atingir a igualdade racial.

[1] Cientista Social. Doutor em Ciências Sociais-Antropologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professor Titular do Departamento de Sociologia e Antropologia e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Coordenador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros-NEAB da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Líder do Grupo de Estudos e Pesquisas Ritmos da Identidade. Filiado à Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN), à Associação Brasileira de Antropologia (ABA) e à SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência). Atua como compositor e cantor na área cultural do Centro de Cultura Negra do Maranhão. É autor de inúmeros artigos, capítulos de livros e ensaios sobre relações étnico-raciais, além de dois importantes livros sobre a cultura negra: “Da Terra das Primaveras à Ilha do Amor: reggae, lazer e identidade cultural” e “Ritmos da Identidade: mestiçagens e sincretismos na cultura do Maranhão”, ambos já publicados em segunda edição.

[2]Graduado em História Licenciatura. Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da Universidade Federal do Maranhão UFMA. Professor na Licenciatura Interdisciplinar em Estudos Africanos e Afro-brasileiros. Integra o Núcleo Interdisciplinar em Estudos Africanos e Afro-Brasileiros (NIESAFRO/UFMA); o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros (NEAB/UFMA) e o Grupo de Estudos Movimentos Sociais, Questão Social e Identidades (GEMS-QI).  É autor de livros e artigos sobre juventude, História, Educação e relações étnico-raciais.

[i] A presente entrevista foi concedida pelo professor doutor Carlos Benedito Silva ao, então, doutorando Rosenverck Estrela Santos. Está publicada na Revista de Políticas Públicas (RPP) v. 25 n. 2 (2021). Encontra-se aqui replicada com o consentimento do entrevistado e da Editoria da Revista.

 

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EM FOCO

CARACTERÍSTICAS SOCIOECONÔMICAS DA POPULAÇÃO NEGRA[i] NO MARANHÃO

O presente Boletim versa sobre tema atual e relevante: as características socioeconômicas da população negra no Brasil e no Maranhão. Como lembra Silva (2021), o Brasil abriga o maior contingente da população negra fora do continente africano.

Em 2021, a população parda é maioria no Brasil, dos 212,6 milhões de habitantes do país em 2021, um percentual de 47,0% era pardo. Se considerar pretos ou pardos, o percentual chega a 56,1%.

Apenas no Sudeste e Sul, as pessoas brancas eram maioria. No Norte, 73,4% dos habitantes se autodeclararam pardos e, no Nordeste, 11,4% eram pretos.  

Considerando as 26 Unidades da Federação e o Distrito Federal, em 22 delas a população parda é maioria, apenas nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul a população é majoritariamente branca.

[i] No presente Boletim, usam-se os termos preto e pardo conforme utilizados pelo IBGE. Para essa instituição de pesquisa, os cinco grupos de cores étnicas que compõem a população brasileira, são os pardos, brancos, pretos, amarelos e indígenas. O termo preto aqui é usado como sinônimo de negro, embora, se reconheça que este termo seja mais enfático por rebater o sentido negativo da palavra e afirmar a pessoa negra e sua relevância histórica.

 

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EVENTO

Nessa edição do Boletim Social e do Trabalho- eixo Pobreza, com o propósito de enriquecer o debate sobre a questão da discriminação por raça, sugere-se que os leitores assistam a dois filmes relevantes pela sua densidade e clareza:

Sobre a temática do racismo estrutural que está na base do processo de formação da sociedade, destacamos “Medida Provisória”, filme brasileiro de ficção dirigido por Lázaro Ramos, que trata da tentativa de reparação feita pelo governo brasileiro contra o passado escravocrata. A ação proposta acende uma reação no Congresso Nacional  que aprova uma medida que constrange os cidadãos negros a se mudarem para a África com a justificativa de retomar as suas origens; 2) “Selma – Uma Luta Pela Igualdade” dirigido por Ava Duvernay trata de relato sobre um ato de protesto organizado pelo pastor Martin Luther King Jr. que foi assassinado em 1968 e permanece como um importante baluarte da luta da comunidade negra. Buscava garantir o direito de voto dos afrodescendentes, campanha que açodou a opinião pública e persuadiu o então presidente americano, Johnson, a implementar a Lei dos Direitos de Voto em 1965.

INFORME BIBLIOGRÁFICO

No contexto da produção bibliográfica conexa ao tema do Boletim, recomendamos a leitura dos seguintes livros:

O GENOCÍDIO DO NEGRO BRASILEIRO: processo de um racismo mascarado de Abdias Nascimento. Publicado pela Editora: PERSPECTIVA

O livro trata sobre o conceito de “democracia racial”, um mantra do orgulho nacional, que é analisado por uma das maiores referências na defesa dos direitos dos negros no Brasil. No texto, o autor desconstrói o discurso oficial sobre a condição social e cultural do negro brasileiro contrapondo a ele testemunhos diversos e história pessoal.

COMO O RACISMO CRIOU O BRASIL

Publicado pela Editora ‎ Estação Brasil. No texto o autor reflete sobre a manipulação das necessidades básicas de seres humanos, para  com vista a validar ou criar distinção social positiva para estratos também oprimidos de “brancos pobres” e dos “pobres remediados”, fazendo-os se sentir superiores a uma classe/raça de “novos escravos”, quase todos negros.

EXPEDIENTE
Editora Geral: Profa. Dra. Maria Ozanira da Silva e Silva
Editora Adjunta: Boletim Ano 12 – Nº 01,
Profa. Dra.Salviana de Maria Pastor Santos Sousa

Projeto Gráfico e Diagramação Juliano Alves
Publicação Bimensal
Os textos publicados são de responsabilidade dos autores.

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