Boletim Periódico – Ano 15(2026) – Nº 4 Eixo Pobreza(Edição Especial) : Maternidade solo na interseção com gênero, pobreza e racismo
EDITORIAL
A presente versão do Boletim Social e do Trabalho – eixo Pobreza traz ao público o debate sobre a maternidade solo de mulheres pobres, negras e moradoras das periferias, uma expressão da questão social entendida como de responsabilidade coletiva. Constitui-se em uma edição especial que representa um esforço desenvolvido com alunos e alunas[1] do quarto período do Curso de Graduação em Serviço Social da Universidade Federal do Maranhão, no ano de 2025, junto à Disciplina Questão Social III e Serviço Social que se volta para a discussão da questão urbana e foi por mim ministrada.
O desafio da edição foi fazer uma leitura do livro “Quarto de Despejo: diário de uma favelada” de Carolina Maria de Jesus, destacando a questão da maternidade solo nas periferias urbanas do Brasil. A perspectiva que mobilizou tal leitura foi que, sendo entendida e vivenciada individualmente, a maternidade de mulheres pobres contribui para a reprodução do quadro histórico de desigualdade social. De fato, ao assumirem, a responsabilidade exclusiva pelo cuidado e provisão do sustento familiar, em um contexto de políticas públicas de proteção social limitadas, o ato de “maternar,” para algumas mulheres, torna-se uma experiência vivida com constantes tensões, onde o propalado amor materno se constitui atravessado pela pobreza, medo, culpa e insegurança quanto ao futuro dos filhos.
Essa realidade está expressa nos dados de pesquisas oficiais que indicam a existência de considerável contingente de domicílios chefiados por mulheres com estas características. Desse modo, para adensar a leitura da obra “Quarto de Despejo: diário de uma favelada” a análise desenvolvida na seção Em Foco toma como suporte dados do Ministério das Mulheres, do Observatório Brasil da Igualdade de Gênero, do Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (2025) e do DIEESE.
Na seção “Atualidades”, retoma-se o debate sobre o tema tendo como suporte a obra em si, “Quarto de Despejo: diário de uma favelada” que apesar de ter sido escrita e publicada no século passado (1960), mantém-se atualizada e possibilita pensar a realidade contemporânea brasileira e maranhense, pois a consistência da análise que a obra encerra dá a ela um estatuto de cientificidade para além de uma autobiografia, mostrando-se um veículo de denúncia da realidade social vivida pela autora, mas que até hoje expressa o cotidiano de várias mulheres/mães em diversas partes do país. Na seção ‘Informe bibliográfico” sugere-se a leitura do livro JESUS. Carolina Maria de, Quarto de Despejo: diário de uma favelada, 10 ed, São Paulo: Ática, 2014. E, na seção “Eventos” aponta-se a relevância do XIX ENPESS – Encontro Nacional de Pesquisadores em Serviço Social que será realizado de 23 a 27/11/2026 em Belém/PA.
Boa leitura!
Profa. Dra. Maria Eunice Ferreira Damasceno Pereira
[1] Participaram da elaboração do Boletim, as discentes: Alana Pinheiro Macedo, Déborah Lohany Sousa Pizon, Giovanna Kaline Silva Moreira, Nadiely Martins Coelho, Nathalia Cristiny Nascimento Moreira, Valéria de Oliveira Pereira, Isabella Hadassa Fernandes Nunes.
ATUALIDADE Nesta seção “Atualidades” toma- se como pano de fundo a obra “Quarto de Despejo: diário de uma favelada”, publicada em 1960, uma leitura incisiva sobre a realidade social contemporânea das periferias urbanas brasileiras. Carolina Maria de Jesus, migrante de Sacramento, Minas Gerais, mãe solteira e moradora da primeira grande favela de São Paulo, a Canindé, que foi desocupada em meados dos anos 1960 para a construção da Marginal do Tietê, mostra no escrito, a realidade da favela sob a perspectiva de uma catadora de papel que só estudou até o segundo ano do ensino fundamental. No entanto, na sua […] | EM FOCO Maternidade solo na interseção com gênero, pobreza e racismo Nesta seção discute-se a realidade das mães solo no Brasil e no Maranhão, constituída, em sua maioria, por mulheres negras, desempregadas, residentes nas periferias das cidades e que assumem sozinhas a responsabilidade pelo sustento e cuidado de suas famílias. Vidas perpassadas pela pobreza, resultante de desigualdades estruturais que se expressam na conformação das classes, nas relações de gênero, raça e etnias e atingem, de formas específicas, determinados grupos. Parte-se do entendimento que a maternidade é um evento que exige responsabilidade coletiva e quando vivida em situações de carência material também não pode ser compreendida apenas como uma escolha individual, mas como resultado de determinações históricas, sociais e econômicas que limitam o acesso a direitos fundamentais e diferentes formas da proteção social. |
EVENTO
O XIX ENPESS (Encontro Nacional de Pesquisadoras(es) em Serviço Social) ocorrerá de 23 a 27 de novembro de 2026 na Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém (PA). Organizado pela ABEPSS, o evento abordará a formação profissional com o tema “Formação em Serviço Social na perspectiva de totalidade: em defesa da unidade das lutas sociais emancipatórias” | INFORME BIBLIOGRÁFICO
Quarto de Despejo: diário de uma favelada” de Carolina Maria de Jesus, destacando a questão da maternidade solo nas periferias urbanas do Brasil. |
EXPEDIENTE
Editora Geral: Profa. Dra. Maria Ozanira da
Silva e Silva
Editora Adjunta: Boletim Ano 15 – Nº 04,
Profa. Dra. Maria Eunice Ferreira Damasceno Pereira
Projeto Gráfico e Diagramação Juliano Alves
Publicação Bimensal
Os textos publicados são de
responsabilidade dos autores.



